Câncer de Pênis: Sentimentos e Percepções de Pacientes Diagnosticados para Amputação

* Autor: Ana Teresa Torres Teles | Publicado em 18/02/2009


Resumo

Este estudo tem como objetivo compreender a experiência de seis pacientes com câncer de pênis diagnosticados para amputação, identificando a partir dos relatos colhidos, os principais sentimentos, proposições e percepções vivenciadas por eles. Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa na perspectiva fenomenológica. Os dados foram obtidos através de entrevista com pacientes do Hospital de Câncer de Pernambuco. Após a análise, os resultados encontrados constatam que o câncer de pênis é uma doença ainda desconhecida pela quase totalidade dos pacientes acometidos e que a causa maior de sua incidência também é absolutamente ignorada. Tal enfermidade oculta perdas irreparáveis tanto para o físico, que envolve a perda do membro, como para o psicológico, por ser percebida como a "perda da masculinidade", constituindo assim o "câncer de pênis com diagnóstico de amputação" uma tragédia sem precedentes na vida do homem.

Palavras-chaves:Câncer de Pênis; Amputação de Pênis; Perda da Masculinidade; Impotência; Sofrimento Masculino; Pênis e Masculinidade; Carcinoma de Pênis.

Abstract
This study targets the identification and the knowledge, within the collected reports, of the main feelings, propositions and perceptions had by six of penile cancer patients diagnosed for amputation. It is about a qualitative approach research under a phenomenological perspective. The data have been obtained through interviews with patients in the Hospital of Cancer of Pernambuco.After been analyzed the results show that the penile cancer is still unknownby almost all of the patients affected and that the main cause of its happening is also ignored. The disease hides irreparable losses both physical, which includes the loss of the sexual member, and psychological, perceived as a "loss of masculinity".For this reason the "penile cancer followed by amputation" is considered a life tragedy.

Key Words: Penile Cancer; Penile Amputation; Loss of Masculinity; Impotence; Male Suffering; Penis and Masculinity; Penile Carcinoma.

Introdução

O presente artigo tem como objetivo empreender uma discussão acerca de um tema desconhecido pela maioria da população – câncer de pênis com diagnóstico de amputação - e que acarreta graves seqüelas para o universo masculino, acometendo particularmente homens das camadas menos favorecidas da população.

A literatura sobre o tema é escassa e pouco divulgada, fato que despertou real interesse em estudá-lo e divulgá-lo.

O câncer ainda nos dias atuais é uma doença silenciosa e repleta de medos e tabus; pacientes e familiares estando face ao diagnóstico do câncer tendem a reações diversas, relacionadas principalmente a perdas e mudanças significativas em decorrência dos procedimentos propostos.

Segundo Kübler-Ross (1996) as pessoas relacionam um tumor maligno com doença fatal, via de regra, encaram o diagnóstico de câncer como uma condenação inevitável, pelo fato do câncer ser uma das principais causas de morte entre as doenças crônicas, mesmo com o avanço crescente dos tratamentos e medicamentos.

Em se tratando do câncer de pênis, verifica-se que tal enfermidade tem sua causa contribuinte decisiva a falta de higiene íntima adequada, sendo o maior fator de incidência dessa má higiene a existência da fimose por dificultar a limpeza. Ocorre ainda como agravante o desconhecimento pela população da ocorrência desse tipo de câncer. As políticas públicas de educação e prevenção não dão ênfase a este tipo de doença.

São poucas, quase inexistentes, as campanhas dirigidas ao sexo masculino, resumindo-se quase sempre à próstata.

Quando detectado em estágio inicial o câncer de pênis é curável sem precisar amputar, no entanto, o tempo transcorrido entre o início dos sinais e sintomas e a procura pelo profissional de saúde é postergado, tendo causas multifatorias como as questões sócio-culturais, vergonha, desinteresse, culpa, medo, ou mesmo o desconhecimento da gravidade da doença pelo paciente. (SBU, 2007).

Pensar em amputação remete, na maioria das vezes, a sentimentos de temor por parte do paciente e da sua família e seu significado é, invariavelmente, de derrota e incapacidade em decorrência da mutilação sofrida.

Reveste-se de inigualável e indescritível peso a amputação peniana, em função dos desdobramentos que tal ocorrência acarreta para a vida do paciente no tocante à sua masculinidade e posicionamento na sociedade. Ora, numa sociedade em que o homem é considerado o "chefe", o falo é o símbolo maior desta masculinidade e a perda do pênis é a absoluta negação desta característica, do poder viril, em que sua auto-afirmação máscula se esvai e certamente é assimilada como uma castração.

"O pênis é mais ou menos como a vida: para alguns, curta; para outros, longa; mas uma coisa é certa: quem tem, não quer perdê-lo". (RECH apud SANTOS, 2003, p.13).

Revisão da Literatura

Para delineamento do foco temático estudado faz-se necessário tecer considerações sobre a literatura.

O câncer ainda é uma das principais causas de morte no Brasil e no mundo. Classificada como uma doença crônica, onde desde o diagnóstico até os cuidados e controle da doença ou o próprio óbito, leva os familiares e envolvidos a percorrer dura trajetória, marcada por perdas e contínuas demandas familiares e sócio-econômicas.

O pênis é o órgão sexual masculino. É formado por corpo cavernoso, corpo esponjoso, uretra, glande e prepúcio. A glande que é a extremidade do pênis é recoberta por uma camada de pele, elástica, que recebe o nome de prepúcio. O estreitamento desta pele é conhecido como "fimose", tal anomalia além de dificultar manter uma relação sexual prazerosa é sobremaneira, um fator de predisposição para o aparecimento do câncer de pênis, visto que, dificulta a higiene.

Ao contrário do câncer de próstata, que não pode ser evitado, a existência do câncer de pênis é injustificável e inaceitável, pois é uma conseqüência da falta de higiene genital e preocupa pelo alto nível de mutilação que irá provocar.

A grande maioria dos pacientes só se dá conta do problema e procura ajuda médica, tardiamente, quando o estado e comprometimento já são graves.

Tumor raro nas regiões mais desenvolvidas e muito freqüentes em regiões subdesenvolvidas tem maior incidência em homens a partir dos 50 anos, muito embora possa acometer também homens mais jovens.

A sintomatologia do câncer peniano se apresenta via ferimentos que não cicatrizam mesmo com tratamento, com secreções e mau cheiro, vermelhidão duradoura, verrugas, perda de pigmentação (manchas esbranquiçadas) na glande e no prepúcio.

Destarte, o cuidado com a higiene do pênis com o uso rotineiro de água e sabão é o método infalível de se evitar o aparecimento das condições para o surgimento de tal enfermidade. Enfatize-se que a lavagem do pênis após as relações sexuais e após a masturbação é também fator imprescindível para uma boa higiene genital.

É fundamental a higiene, como também, assegurar a prática sexual com o uso de preservativo, que além de ser eficaz para evitar inúmeras doenças sexualmente transmissíveis, é útil também na prevenção do câncer de pênis por conta da relação existente entre tal malignidade e o HPV (papiloma humano); porém o papel exato da infecção pelo HPV na gênese dessa neoplasia ainda não está totalmente esclarecido.

Para ilustrar melhor como se pode diagnosticar um câncer e dizer como ele se apresenta, faz-se necessário saber que ele pode ser detectado por estágios.

Estadiamento Geral do Câncer:

As formas de estadiamento do câncer são as mais variadas possíveis levando-se em conta o órgão atingido. De forma resumida pode-se afirmar:

Estágio 1. Localizado. Via de regra confinado ao órgão de origem e, geralmente, curável com medidas locais, como cirurgia ou irradiação.

Estágio 2. Localizado, mas extenso. Pode se estender para fora do órgão de origem, mas mantém a proximidade. É, às vezes, curável com medidas locais (cirurgia e irradiação), ou então, em conjunto com a quimioterapia.

Estágio 3. Disseminado regionalmente. Estende-se para fora do órgão de origem, atravessando vários tecidos. Pode atingir linfonodos (gânglios) na região do tumor. Tem ainda o potencial de ser curado, embora as recidivas sejam mais freqüentes. O tratamento local ou sistêmico depende das características do tumor.

Estágio 4. Disseminado difusamente. Geralmente envolve múltiplos órgãos distantes e é raramente curável. (BARBOSA JÚNIOR, ATHANÁZIO & OLIVEIRA, 1984, p.15).

A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) divulgou no dia 29 de maio de 2007 o 1º Estudo Epidemiológico Sobre o Câncer de Pênis e, a partir do dia 1º de junho deu início a uma campanha educativa para erradicar a doença: Campanha de Combate ao Câncer de Pênis. O padrinho da iniciativa é o ex-jogador de futebol da seleção brasileira e atual técnico do Fenerbahçe, da Turquia, Zico. O jogador foi convidado a gravar um comercial para esclarecer a população com o slogan: "Jogue limpo com o seu amigo".

A campanha foi planejada para ter início no Maranhão com moto home – equipado com TV, DVD, com programas explicativos para leigos – e uma equipe multiprofissional de saúde. Ao todo, foi proposto percorrer 20 cidades em 41 dias, promovendo palestras e distribuindo panfletos.Ficou estabelecido realizar 200 cirurgias no período. A proposta é que nos outros Estados, ao longo do mês, aconteçam palestras em hospitais públicos e panfletagem em pontos estratégicos para conscientizar a população. (SBU, 2007).

A experiência de estar doente é vivida de forma única pela pessoa. Mesmo quando alguém tenta compreender a dor do doente, ninguém sentirá o que ele sente.

O relatório final da 8ª Conferência Nacional de Saúde define saúde num sentido abrangente, como resultante das condições de alimentação, habitação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade e acesso a serviços de saúde.

Saúde caracteriza-se como harmonia entre o homem seu meio ambiente físico e social.

Havendo ruptura dessa harmonia chega-se à doença, podendo-se atingir o desequilíbrio total.

Geralmente, a saúde é vista como se fosse um estado de não-doença, de não mal-estar, não-dor/sofrimento, em que o indivíduo pode continuar a desfrutar de sua vida sem alterações significativas.

A doença se apresenta por meio de sinais e sintomas no corpo ou na mente do indivíduo e neste aspecto cada pessoa tem uma maneira própria de vivenciar, interpretar e narrar suas enfermidades.

Este adoecer pode chegar a envolver a hospitalização, onde ocorre a ruptura da história de vida do sujeito; ele percebe que não é mais o mesmo e acaba sofrendo um processo de perda de identidade e passa a ser considerado doente, portador da doença, e acontece a perda de sua autonomia.

[...] o fato de ter de ser levado ao hospital e ser internado, já implica por si só uma quebra do domínio sobre si mesmo, pois neste caso, passará de uma situação de vida como agente, para uma situação de paciente, tanto no sentido psicológico quanto no orgânico. (SEBASTIANI apud CAMPOS, 2003, p. 31).

A pessoa na condição de hospitalizado vivencia um quadro de sujeito-sujeitado, visto que a instituição hospitalar impõe ao paciente rotina e procedimentos que na maioria das vezes o deixa com muitas angústias inerentes a essa internação. É de suma importância que o psicólogo hospitalar considere o doente como pessoa, com toda sua complexidade cultural, social e biológica. No processo de hospitalização, o profissional da psicologia tem diante de si um sujeito que foi até então equilibrado, sem necessariamente ser portador de algum transtorno psicológico, mas que teve sua vida desestruturada a partir da presença de sua doença. De acordo com Simonetti:

Diagnóstico é o conhecimento ou determinação duma doença pelo(s) sintoma(s), sinal ou sinais e ou mediante exames diversos (radiológicos, laboratoriais, etc.). (...) É neste momento que a pessoa experimenta a ruptura com a saúde e que acontece o desencadear da crise psicológica como paralisação da continuidade do processo de viver. (2004 p. 70 e 71).

A despeito do preconizado pela Organização Mundial de Saúde e da exigência do SUS (Portaria nº. 3535/98) obrigando a presença de psicólogos em serviços de oncologia para atendimento integral dos doentes, a realidade brasileira é ainda precária. Tal fato resulta em pacientes com sofrimento físico acrescido da dor psíquica, redundando em agravamentos da enfermidade e dificuldades quanto à reabilitação e elaboração deste momento de doença.

Segundo Carvalho (2003) a Psicooncologia é muito importante para o tratamento dos pacientes com câncer por ser a interação entre a Psicologia e a Oncologia, que busca neste momento da doença o atendimento de pacientes e familiares, o desenvolvimento de políticas de saúde e de pesquisas na área e a formação continuada dos profissionais envolvidos.Para esse autor

O aumento do número de sobreviventes e do tempo de sobrevida de pacientes oncológicos, ocorridos pelos avanços nas áreas médica e farmacológica, torna imprescindível o acompanhamento psicológico do paciente e de sua família em todas as fases do tratamento de combate ao câncer. (2003, p. 43).

Para tanto um caminho significativo seriaa Psicologia com a Psicossomática que pode ser compreendida como uma visão da relação entre Patologia e Terapêutica tendo como objetivo o tratamento de doentes e não somente de doenças; sendo assim, busca compreender a relação entre os estados emocionais e o aparecimento de sintomas somáticos e os diferentes tipos de doenças físicas.

Pela seqüência lógica do que entendemos sobre a vida, temos uma grande certeza que é a morte. Nascemos já destinados a passar por várias etapas, onde uma delas é a morte que pode aparecer a qualquer momento. Cada uma dessas etapas possui o seu próprio conjunto de características esperadas no que diz respeito, por exemplo, ao desenvolvimento físico, capacidades intelectuais e conquistas sociais. Todos nós esperamos algum acontecimento de acordo com a etapa em que nos encontramos. Porém, a morte, raramente é um acontecimento esperado, muito menos cogitado.

Não importa o momento da vida pelo qual passamos, a morte é algo que pode ocorrer a qualquer um, em qualquer momento, em qualquer lugar. Mesmo sabendo deste fato, dificilmente pensamos sobre ela ou paramos para refletir sobre os sentimentos e idéias que a ela associamos.

Dentro da literatura percorrida, foi revisitada a Fenomenologia, para que se pudesse embasar criteriosamente a pesquisa qualitativa do presente estudo.

A Fenomenologia surgiu no campo da Filosofia como um método que possibilitasse chegar à essência do próprio conhecimento, apresentando a redução fenomenológica como o recurso para empreender essa tarefa. Permite retornar à experiência vivida e sobre ela fazer uma profunda reflexão que possibilite chegar à essência do conhecimento, ou à maneira como este se constituiu no próprio existir humano. Para Forghieri "o conhecimento psicológico é reflexão e ao mesmo tempo vivência; é conhecimento que pretende descobrir a significação, no efetivo contato do psicólogo com sua própria vivência e com a de seus semelhantes". (2004, p. 59).

A essência de todos os sofrimentos humanos fundamenta-se no fato de que a pessoa perdeu essa capacidade de se abrir e de se decidir livremente acerca de suas possibilidades de comportamento normal. Os métodos psicoterapêuticos têm por objetivo devolver à pessoa, na medida do possível, a livre disposição de suas possibilidades existenciais de comportamento que correspondem aos dados do mundo.(BOSS, 1975,p. 24 apud FORGHIERI , 2004, p. 55).

Portanto, a redução fenomenológica em relação ao paciente com diagnóstico de amputação de pênis, constitui-se em voltar ao mundo real, ao momento atual em que este paciente se encontra, enquanto um ser doente, sem nenhuma interferência externa ou idéias preconcebidas, para que ele possa retornar a essa experiência vivida, podendo se expressar como ele se percebe ou se constitui em quanto ser-no-mundo.

A trajetória Metodológica

O presente trabalho teve origem nos depoimentos de 06 pacientes do sexo masculino na faixa etária entre 40 e 70 anos, atendidos no HCP - Hospital de Câncer de Pernambuco. A trajetória da busca de autorização pelo Comitê de Ética e da realização da coleta de dados foi desenvolvida no período de 10 de julho a 20 de novembro de 2007. Foi utilizado um roteiro de entrevista semi-estruturada elaborado pela pesquisadora, entrevista essa que ao realizar-se no diálogo seria gravada sonoramente em fita cassete. A entrevista ocorreu numa sala reservada e sempre após o término das consultas, quando o médico diagnosticava o paciente, definia a sua proposta para a amputação, e o encaminhava para a pesquisadora; houve também entrevista de paciente hospitalizado para ser cirurgiado. Antes da entrevista foram apresentados ao paciente explicação sobre os procedimentos da coleta de dados, o objetivo da pesquisa e a relevância da mesma, assim como o texto do termo de consentimento livre e esclarecido.

O material de estudo utilizado foi o relato de cada sujeito sobre seus sentimentos, proposições e percepções vivenciadas ao serem diagnosticados para amputação. Foi levada em consideração a experiência relacional do sujeito com a pesquisadora e a observação desta sobre ele.Foram transcritas as falas dos sujeitos, em seguida literalizadas para adequação à comunicação social da região, sempre mantendo fidelidade à mensagem da pessoa para, a partir de então se buscar a análise e compreensão qualitativa apoiada na fenomenologia.

A metodologia utilizada para a análise dos dados baseia-se na pesquisa qualitativa dentro da perspectiva fenomenológica, seguindo estudiosos que fornecem sustentação a essa abordagem.A inspiração para isso teve por base:

A redução fenomenológica consiste em retornar ao mundo da vida real, tal qual aparece antes de qualquer alteração produzida por sistemas filosóficos, teorias científicas ou preconceitos do sujeito; retornar à experiência vivida e sobre ela fazer uma profunda reflexão que permita chegar à essência do conhecimento, ou ao modo como este se constituiu no próprio existir humano. (FORGHIERI, 2004 p. 59).

Nessa concepção, buscou-se a imersão, compreensão e identificação nos relatos colhidos para por em evidência os principais sentimentos, proposições e percepções destes pacientes.De acordo com Forghieri (2004, p.58) "o método fenomenológico apresenta-se à Psicologia, como um recurso para a pesquisa da vivência".

Construindo os Resultados

Após as leituras dos seis discursos das entrevistas, foi feita a transcrição do material colhido, seguindo-se a literalização dos textos, isto é, a adequação dos mesmos à compreensão social, mantendo completa fidelidade à mensagem original do entrevistado.

Vale salientar que dos seis entrevistados, um deles recusou-se a fazer a gravação, preferindo que a pesquisadora escrevesse sua fala. Um outro iniciou com a gravação e no meio da entrevista solicitou que não fosse mais gravado e sim escrito pela pesquisadora. Também aconteceu a recusa de participação por parte de dois pacientes que não foram computados no total dos seis, por terem os mesmos declinados da entrevista.

Foi buscada inicialmente, a compreensão do sujeito e de suas revelações, seguida do entendimento e da descrição detalhada dos principais sentimentos, proposições e percepções vivenciadas pelos entrevistados diagnosticados para amputação de pênis. Posteriormente, foram identificadas as unidades de significados contidas nas revelações dos entrevistados e por fim, realizada a síntese das mesmas para chegar à essência do fenômeno. "É o homem que infunde significados ao mundo". (MERLEAU-PONTY, 1994, p. 25).

A síntese se deu, partindo das temáticas centrais levantadas no objetivo da pesquisa e a análise dos dados foi fundamentada a partir da revisão da literatura pertinente ao estudo proposto.

O ser humano dificilmente consegue se preparar no percurso de sua vida para vivenciar passagens que são inerentes à sua existência. Desde o nascimento, os seres humanos passam por alterações físicas e psicológicas, cognitivas e sociais, transformações que permeiam toda a sua vida.

Ao longo do seu viver o homem encontra condições para elaborar equacionamentos para problemas contemporâneos, crises sociais atuais, cura das mais variadas doenças e para o prolongamento da vida. Desta maneira, o homem no mundo desenvolve seus sentimentos pessoais de acordo com sua subjetividade, mas o seu sentir surge carregando consigo sua experiência de vida, sua autopercepção, e sua perspectiva de futuro. Para Forghieri (1984) durante o adoecer, envolvendo a hospitalização e o pré-operatório o paciente experiencia ambigüidade de sentimentos, pois esse momento da vida em que a pessoa está prestes a assumir um novo modo de ser-no-mundo, desperta uma infinidade de sentimentos, verbalizados ou não.

As pessoas participantes deste estudo serão identificadas ao longo deste trabalho, com códigos do tipo A1, A2, A3, A4, A5 e A6, a fim de manter o anonimato e preservar suas identidades.

No tocante ao sentimento, foi possível resgatar, nos discursos dos pacientes, as expressões características de dor, negação, revolta, culpa, medo, conflito, tristeza, incerteza, insegurança e choro, onde os gestos e expressões faciais comunicavam a dificuldade em viver na iminência de uma cirurgia de amputação de pênis. Evidenciou-se nos discursos dos pacientes que esses múltiplos sentimentos determinam e influenciam todo o processo em torno do adoecimento. Relataram um total desconhecimento desta enfermidade e dos caminhos e fatores que a ela conduzem. Explicitaram a "aceitação" da inevitável cirurgia diante do impacto deste diagnóstico. Alguns fragmentos de falas revelam isto:

(...) Ficar em hospital a gente sente como ficar na prisão e ainda mais esperando o que eu estou esperando, é para mim como esperar um castigo muito grande, melhor seria a morte,ficar dependendo dos outros é ainda pior.A1

(...) Olhe, hospital é lugar que a gente só vem quando precisa, quando necessita mesmo, mas, é muito ruim. A verdade é que eu me sinto muito humilhado e dando trabalho para os outros, para tudo; tenho um sentimento de tristeza. Quando estou em casa à gente se sente melhor, tem a família, a gente vê as pessoas, pede uma coisa a um a outro, conversa, é bem melhor. Eu acho que só quem gosta de hospital são os médicos e as enfermeiras, as pessoas que trabalham nesse lugar.A3

(...) Foi uma surpresa... (paciente baixa a cabeça e faz silêncio), ruim, muito ruim. (...) Foi muito doloroso, fiquei desesperado, com medo, não sabia nada sobre esse câncer de pênis (...) A1

(...) A gente fica muito abalado nesta hora com uma noticia ruim desta, fiquei triste, revoltado e com vontade de chorar e chorei. Já tinha escutado sobre o câncer, mas não de pênis. Não foi fácil, nem tem sido, conviver com essa incerteza de que vai ficar bom e pensando em ficar sem o meu pênis.A2

(...) Receber a notícia dessa doença foi muito ruim. Eu não acreditava e perguntava por que comigo? Como pode alguém que nunca matou nem uma mosca ter uma coisa assim. Eu queria morrer depois que eu compreendi que era realmente uma coisa grave e que eu ia ficar sem... (choro intenso) meu... pênis. Eu não sabia nada sobre esse câncer só ouvia falar em câncer de próstata, mas esse danado de câncer que deixa o homem ficar sem ser mais homem, esse... eu fui sorteado com coisa ruim.A3

(...) No dia que recebi a notícia mesmo, confirmada, que era câncer, aí eu morri, nesse instante eu me senti morto, eu fiquei desesperado com essa notícia, eu vi a morte de perto. Tive a sensação de que não ia agüentar viver.A4

(...) Eu não compreendia nada que o médico falava não, então eu achava que ia me operar e ficar bom logo. Depois foi que eu entendi que era para ser cortado. Aí minha filha, eu fiquei desarvorado, assim meio sem juízo, me sentindo sem vida, muito desesperançado e triste. Não queria acreditar naquilo de jeito nenhum. Eu num vou cortar não doutor, de jeito nenhum eu deixo cortar.A5

Tendo perpassado as principais expressões características dos sentimentos dos entrevistados, pode-se perceber a difícil escolha destes em optar por ficar doente e antecipar a morte ou "aceitar" a amputação para "sobreviver". Pode-se perceber também, sentimento acerca da morte permeando suas vivencias neste momento do despertar para a gravidade de sua doença.

Finalmente, somos vivos, mas também mortais. Vivemos e morremos, de certo modo simultaneamente, pois, a cada dia que passa nossa existência tanto vai se ampliando quanto vai se tornando mais curta. No decorrer de nosso existir caminhamos, a cada dia, pra viver mais plenamente, assim como pra morrer mais proximamente. (FORGHIERI, 1984, p. 18).

Apreciaremos a seguir as proposições reladas pelos entrevistados.

Perder uma parte do corpo é ter alterada toda sua existência, é viver uma incompletude que traz consigo uma série de alterações no existir do indivíduo. A fenomenologia da percepção descreve o corpo como fenomenal, agente ativo na produção da experiência, e como virtual, um campo de possibilidades que se volta para um ambiente que ele mesmo constrói. (MERLEAU-PONTY, 1994, p. 25).

Quando se perde alguma parte do corpo, se faz necessário adaptar-se, readaptar-se, aprender a viver novamente, no entanto, de acordo com os aspectos desvelados nas proposições colocadas, esses homens não conseguem imaginar uma nova perspectiva de vida para o futuro, diante do diagnóstico de amputação do pênis, muito pelo contrário, as proposições mostraram que viver essa amputação é incorporar ao seu existir algo não desejado que com certeza o deixará inutilizado como trabalhador e principalmente como homem, macho e chefe.

"Na vivência da decepção o homem sente-se joguete do destino,... a dor é como um poço sem fundo, no qual nunca se pode atingir o absoluto" (FRANKL, s/d, p. 109 apud FORGHIERI, 2004, p. 46). As falas que se seguem explicitam esse fato:

(...) Eu não tenho falado diretamente para nenhum homem que eu conheço, para que eles não debochem da minha cara, dizendo que eu não sou mais homem; eu tenho muita vergonha e tristeza de falar deste assunto (se emociona, puxa um lenço e enxuga as lágrimas); a minha vida acabou e eu sei que os outros homens que não estão cortados, que ainda têm o seu... pênis,vão rir de saber que eu vou ser capado.A3

(...) Eu já estou doente a tanto tempo, que acredito que não vou ficar curado, pois a coisa tá feia. Então no ano passado quando comecei a sentir dores e que o problema tava ficando sério, resolvi me casar [de papel passado] com a mulher com que já vivo há 25 anos, para que se eu morrer deste câncer... ela não fique desamparada, já que nem filhos eu pude ter, pois os dois filhos que temos, um é [só] dela e o outro é adotado.A4

(...) Olha eu não sei nem o que dizer neste momento; eu estou tão nervoso, tão irritado que meu pensamento está assim voando, não tem direção certa. Assim mesmo eu vou ver se depois de "cortado"... (fica cabisbaixo e em silêncio) eu consigo falar para outras pessoas [que se cuidem, para continuar] a viver e não morrer... ("chora neste instante").A4

(...) Não consigo me imaginar sem meu pênis, minha vida acabou, pode crer, ainda mais agora mijando como mulher... Para que viver se vou ficar sem meu pênis. Não sirvo mais para nada, ter saco só de enfeite?A6

(...) Eu penso que como homem eu não sirvo mais. Acho que trabalhar eu não vou mais conseguir; não com coisa pesada; nos braços eu tenho força, mas não sei o que é um homem sem pênis ainda.A3

(...) Não, eu não tenho mais futuro pra frente. Eu penso, se eu não morrer agora eu vou morrendo aos poucos de desgosto de não ser mais homem, vou ser um deficiente... Não presto mais para nada, não vou mais ser o homem da casa nem vou merecer mais respeito desse jeito.A2

(...) Eu penso que vou tentar tocar minha vida de onde parou: meu trabalho e a rotina, mas a vida sexual, essa acabou, é o que vai me fazer mais falta e isso me dói muito, como se estivesse com uma faca enfiada no peito.A5

Após os relatos das proposições acima apresentados, parte-se neste momento para apreciação das principais expressões características das percepções que foram apresentadas nas falas.

O nosso existir é realmente cheio de incertezas, pois decorre num fluxo crivado de paradoxos e de riscos que nos dificultam ter segurança para agir.

Enquanto o paciente não visualiza claramente as possibilidades que se apresentam – isto em relação a ficarem vivos após a cirurgia -, que requerem redimensionamentos sofre por falta de proposições positivas em relação à vida futura, onde somente as proposições negativas que envolvem a dependência do outro ganha amplitude na vivência deste. O paciente passa a preocupar-se com a dependência, vislumbrando-a como futuro marcado por sofrimento. A existência é uma abertura à percepção e compreensão de tudo o que ela apresenta. Tal abertura "é a condição da liberdade humana" (FORGHIERI, 2004 p. 46).

O câncer afeta muitos aspectos da vida do indivíduo como um todo e em se tratando de algum tipo de câncer nas partes genitais envolve principalmente a sexualidade em sua dimensão física e emocional. O câncer implica num elevado grau de comprometimento na auto-imagem corporal, podendo acarretar danos ao conceito que se tem de si próprio, à percepção e à aceitação ou não da própria sexualidade dentro do relacionamento sexual.

Quando mudanças quase sempre agressivas e inesperadas ocorrem, alterações igualmente abruptas assolam o senso de identidade da pessoa juntamente com sentimentos de intensa insegurança e medo. A percepção do próprio corpo é fundamental tanto para se lidar com a própria sexualidade como para se relacionar com o outro; assim pensar uma mutilação de alguma parte do corpo é mudar a sua forma de se perceber.

Os entrevistados relataram os conflitos entre a forma idealizada de como o homem se percebe e a imagem real causada pela enfermidade.

A possibilidade de uma cirurgia mutiladora e até mesmo a ocorrência de episódios de dor e efeitos colaterais que envolvem o tratamento de câncer, alteram a percepção e, portanto, a sexualidade, tendo repercussões negativas na identidade que podem desorganizar o funcionamento na vida a dois. Isto pode ser percebido claramente nos discursos a seguir:

(...) Me percebo como uma pessoa perdida, sem vida, sem prumo, sem rumo. Não consigo trabalhar, não tenho vontade de viver, fico deitado o tempo todo, tenho vontade de morrer, acho até que seria melhor para todo mundo.Eu vou ser um homem morto - vivo sem o meu... (silencia, passa a mão na cabeça) pênis, (...) Me vejo uma pessoa inútil, (...) Essa cirurgia de cortar o meu pênis vai me deixar um homem partido pela metade; eu preferia morrer na hora da cirurgia.A1

(...) Eu percebo que a minha vida deveria acabar agora. Vou solicitar ao médico algum remédio para morrer (...) Para que eu vou servir com o pênis cortado, sem fazer a coisa mais importante na vida do homem, o sexo.(...) Me percebo destruído, acabado como uma terra em que não se pode plantar, me percebo morto.A2

(...) Penso que eu vou levar galha da minha mulher, eu não vou agüentar essa vida assim, não vou conseguir (chora).A2

(...) Agora falei tudo para minha mulher até que meu irmão disse que se eu fosse mesmo cortar eu mandasse logo ela embora de casa. (...) Não vou mais poder fazer sexo com ela. A4

(...) Eu sei que estou doente, mas não queria cortar. (...) Como macho, percebo que eu preferia não cortar, pois a gente nasce para morrer com tudo que Deus deu principalmente uma coisa certa do homem.A6

(...) Eu me acho muito fraco, sem coragem, sem querer conversar esse assunto com ninguém; sinto como se fosse ser enforcado na frente de todos, sem pena nem dó, (...) Não queria perder "meu companheiro", é uma coisa que vai me fazer muita falta, principalmente pelo sexo.A5

(...) Diretamente eu sempre digo que a gente tem três ou quatro tempos para morrer... (pára, pega o lenço e chora silenciosamente): quando criança, jovem, adulto e depois velho. Eu me sinto hoje velho, não por causa da idade e sim por causa da doença, (...) Me vejo como um homem velho que não funciona mais como macho, um guerreiro sem a sua tribo.A3

De fato, é muito difícil predizer como o câncer e seu tratamento irão afetar cada paciente.

As mudanças provocadas pela doença indicam que a pessoa precisará se adaptar e descobrir novos caminhos para dar e receber prazer sexual, ao menos temporariamente, no entanto, não há como vivenciar uma experiência traumática como o câncer sem afetar os outros "departamentos" do relacionamento pessoal dos pacientes (MASTER & JOHNSON, 1984).

Naturalmente, com o aparecimento de uma doença crônica e grave, o processo de construção ou de manutenção da identidade conjugal é modificado ou alterado, novas demandas surgem, as questões não são as mesmas, muito menos as prioridades, tanto do casal, como da família.

"O que desapareceu no doente foi o poder de projetar diante de si um mundo sexual, de colocar-se em situação erótica ou, uma vez esboçada a situação, de mantê-la ou de dar-lhe uma seqüência até a satisfação". (MERLEAU-PONTY, 1994, p. 118).

Os relatos percorridos permitiram desvelar os sentimentos, proposições e percepções vivenciadas pelos pacientes com câncer de pênis diagnosticados para amputação, mostrando os significados mais profundos que os entrevistados trazem em torno desta doença. Quando um sujeito recebe o diagnóstico de uma doença grave, no primeiro momento sente-se totalmente ameaçado e inseguro. Por que eu? Pergunta-se. Geralmente ele manifesta certa incredulidade, uma negação de sua doença. Aceitá-la requer repensar sobre sua vida, seus projetos, relacionamentos, ganhos e perdas.

E a partir de então, a palavra perda parece fazer parte de sua existência – a perspectiva muitas vezes é de estar perdendo, em função da doença, uma possibilidade de vida que agora sofre limitações. É estar aceitando que entre as passagens que acontecem durante nossa existência há a do encontro com a morte, o que tentamos ignorar até então.

O significado colhido das expressões pessoais profundas da pesquisa em pauta mostra que a maneira como as pessoas lidam com o processo do adoecimento caracteriza-se por um modo singular de experienciar este acontecimento.

De acordo com Merleau-Ponty (1994), a imagem corporal sofre transformações, ela é hábil e incompleta. Irá depender sempre de como fazemos uso dela, de nosso pensamento, de nossas percepções e das relações objetais.

Considerações Finais/Conclusões

A masculinidade não é algo dado, mas algo que constantemente, diuturnamente se tem que construir e preservar, conquistar, externar e não basta ter sido macho até ontem, há necessidade de sê-lo agora, hoje, amanhã e sempre, pública e notoriamente. A construção da masculinidade é norteada por pontos de insegurança experimentados ao longo da vida do ser masculino, principalmente pelo medo do homossexualismo e da impotência.

Imaginar-se o ser homem no mundo após a amputação do seu pênis, faz aflorar sentimentos do tipo de perda da masculinidade, da sexualidade, deixar de ser homem, de inutilidade, perda de prazer, perda do "companheiro", suicídio, morrer, não querer mais viver, o mundo acabou, é o fim... São afirmações unânimes de todos os entrevistados.

A realização deste estudo desvela facetas do câncer peniano com diagnóstico de amputação, onde o sentimento, proposições e percepções dos entrevistados são de desolação, de tragédia, de desgraça total e absoluta. Suas manifestações verbais e corporais são profundas, graves e solenes, demonstrando à cruel e real angústia desse seu momento atual de suas vidas. Os pacientes externaram que viver tal amputação é triste, difícil, doloroso, é a própria morte, contudo, diante desse sofrimento, a confrontação entre o amputar e viver e o não amputar e morrer mostra-se como um total paradoxo, onde o instinto de sobrevivência fala mais alto, contrapondo-se com a vontade de morrer por ter que ficar sem o pênis.

Todavia, vale salientar que desde a percepção da existência do ferimento no pênis, a vida sexual dos pacientes em questão já estava comprometida.

Há uma enorme gama de sentimentos e percepções envolvidos no processo de alteração do corpo, e, portanto, de todo o existir, já que para o homem, o pênis tem importância transcendental em seu posicionamento no mundo. Dessa forma, torna-se evidente a importância por um novo desenvolvimento harmônico do processo de reabilitação, pois reabilitar esse paciente não é só devolvê-lo ao seu meio e à sociedade como uma pessoa "normal" apesar da deficiência, mas devolver a si próprio essa "normalidade".

A reabilitação deve ser capaz de levar ao paciente a perspectiva de um cotidiano que beire ao máximo à normalidade; de um existir modificado, mas que permita manter a abertura ao mundo e às coisas. Olhar o homem amputado, a partir da sua perspectiva permite um cuidar direcionado à extrema singularidade e à particularidade da experiência por ele vivida.

O pênis é símbolo de vigor, de poder, onde até o seu tamanho é motivo de inquietação e faz parte do dia-a-dia do ser masculino, que faz relação entre seu tamanho e eficiência sexual, carregando assim o "fetiche" de que quanto maior o pênis, igualmente maior será sua masculinidade.

É certo que o binômio sexualidade/câncer de pênis ainda é muito pouco explorado pela comunidade científica e pelas políticas de saúde pública. Os problemas sexuais tomam uma dimensão menor quando comparados aos riscos de uma morte prematura. O que acaba por deixar alguns homens constrangidos e, até mesmo culpados, por estarem pensando em sexo, neste momento, quando deveriam "estar agradecidos" por ainda terem a chance de permanecer vivos ou mortos-vivos?

É de competência dos profissionais de saúde, das políticas de saúde pública e dos órgãos responsáveis facilitarem o encaminhamento de solução a esses problemas, adotando uma postura mais sensível ante o impacto devastador do câncer de pênis, que compromete a subjetividade, a sexualidade e, sobretudo a qualidade de vida desses homens. Um aspecto essencial é a necessidade imediata de apoio e programação de suporte psicológico para esses pacientes.Seguramente, trata-se de uma enfermidade de marcante repercussão emocional porque envolve a mutilação de órgão de extraordinário significado para a masculinidade, com prejuízo da auto-estima, redundando em distúrbio funcional na atividade sexual.

Nesse sentido o estudo propõe lançar sementes de inquietação e reflexões, acerca da escuta profissional com relação ao adoecimento dos pacientes com câncer de pênis. A amputação parcial ou total do pênis traz sérias conseqüências físicas e psicológicas ao paciente. Assim, faz-se urgente e necessário um acompanhamento psicológico durante todo o percurso, do diagnóstico ao pós-operatório e na reinserção social, com objetivo de diminuir a ansiedade em relação ao adoecimento, à cirurgia, à readaptação e à qualidade de vida do paciente como um todo, não se devendo esquecer as campanhas informativas, educativas, preventivas, para que se reduzam os números da doença no futuro.

Tomando como base os relatos apresentados pelos entrevistados, entende-se que, independentemente da idade, grau de instrução, profissão, religião e nível socioeconômico, o homem terá sempre o estereótipo da força e da masculinidade relacionadas ao seu pênis, como algo inerente ao seu viver enquanto ser-no-mundo.

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*A autora é Psicóloga, CRP-02/13784. Atualmente cursando pós-graduação em Gestão de Equipes (LIBERTAS)eIntervenções Clínicas (FACHO).

E-mail: anateles@oi.com.br

Projeto de Pesquisa aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa no Hospital de Câncer de Pernambuco no segundo semestre de 2007.



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